Petrópolis, 29 de Setembro de 2020.
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  Medo e a luta de quem se recusa a deixar o Cuiabá

Data: 17/01/2012

 

Guaracy viu da janela de casa a enxurrada varrer toda a região vizinha à propriedade. Agora, ela teme barreira. / Roque Navarro

O trauma decorrente da tragédia que atingiu a região do Vale do Cuiabá na madrugada de 12 de janeiro de 2011 ainda está presente na memória de boa parte das pessoas que sobreviveram àquela noite de terror. Emocionados, muitos moradores ainda ficam com a voz embargada ao lembrar da luta para sobreviver naquela noite e dos amigos e parentes que não conseguiram escapar  das águas. Apesar do medo, muitos enfrentaram os traumas e ao longo deste ano recomeçaram suas vidas em um cenário de absoluta tristeza. Aos 69 anos, Francisca Arcanjo Barbosa precisa caminhar por pelo menos 40 minutos para chegar ao pequeno sítio em que mora com o marido de 80 anos e uma filha, de 15 anos. Apesar de ter ficado isolada por três dias – sem água ou comida na ocasião da tragédia – e de todas as dificuldades de acesso que enfrenta até hoje, a família não quer deixar o local.
“Quando chove eu fico preocupada. Me lembro que naquele dia uma quantidade muito grande de água entrou na minha casa, eu tentei sair e acabei caindo e quebrando umas costelas. Foi um sufoco, ficamos sem comida e sem água, porque tudo que tinha em casa estragou e não tínhamos como sair, mas graças a Deus o pessoal dos Bombeiros chegou. Eles foram muito bons conosco. Conseguir sair daqui foi muito difícil, precisamos passar pelo mato. Os bombeiros levaram umas três horas para conseguir me tirar daqui. Apesar de todo o sufoco, eu não vou sair daqui, gosto muito desse lugar. Fico triste quando sinto falta de algum vizinho e me lembro que eles morreram naquela noite, mas estamos reconstruindo nossa vida, comprando as coisas aos poucos. Perdemos tudo, mas estamos conseguindo reorganizar a vida”, conta Francisca Barbosa.
No dia 12 de janeiro do ano passado, Guaracy Mendes Passo viu da janela da casa em que mora, às margens da Estrada Ministro Salgado Filho, a tragédia que assolou a região. Apesar de ter escapado da força das águas, o imóvel é ameaçado pela encosta, e a família também convive com o medo. “Cada vez que chove forte a gente fica na sala de casa, que é o único cômodo mais seguro. Não dá pra dormir, temos medo que alguma barreira caia. A gente fica com muito medo sempre que chove. Deus nos protegeu nessa tragédia, mas vimos tudo que aconteceu naquela noite, ouvimos pessoas gritando por socorro, foi horrível. Quando amanheceu eu não conseguia acreditar no que eu via, parecia que aquilo tudo era um pesadelo”, lembra Guaracy.
 

Morador cria seu próprio sistema de alerta

Sem a instalação de qualquer sistema de alerta de cheias no Vale do Cuiabá, a solução encontrada por um morador que há mais de 60 anos vive na naquela região foi construir um sistema de alerta particular. O equipamento simples exigiu um pequeno investimento para a compra de uma bateria de carro, uma buzina, uma boia, um interruptor, uma telha e fios de nylon. A boia foi  instalada na área de escoamento de águas pluviais que existe no terreno da casa. Em caso de cheia do riacho onde as águas pluviais desembocam, a boia aciona o equipamento e a buzina dispara em alto volume. “Se ela tocar eu sei que o rio lá embaixo está quase transbordando e dá tempo de eu telefonar para os vizinhos e fazer um alerta. Como ninguém instalou um sistema de alertas aqui, achei melhor fazer um pra minha casa, assim, se o rio subir de novo, terei tempo de alertar os outros e retirar minhas coisas de casa”, disse o morador, que prefere não se identificar.
Nas chuvas de janeiro do ano passado, ele perdeu quatro carros, todos os móveis e equipamentos que tinha em casa. Apenas os imóveis, que ficam em uma área distante do rio, ficaram de pé. “Em mais de 60 anos morando aqui nunca tinha entrado água na minha casa. Naquela noite a água praticamente cobriu a minha casa, ficou acima da janela. Conseguimos tirar todo mundo de casa e todos ficaram lá em cima do barranco, esperando a água baixar”, lembrou.

Fonte: Tribuna de Petrópolis.




 

 

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