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  A vergonha dos sistemas de alerta

Data: 26/01/2011

A vergonha dos sistemas de alerta

 

            Não podemos evitar a chuvas, mas temos a obrigação de evitar as mortes. Desde as tragédias do Alto da Independência e do Posto do Garrafão de Teresópolis em 1981, venho estudando quais as melhores formas de alertar as populações  quanto aos riscos de deslizamentos e enchentes. No primeiro trabalho apresentado em 1984 no 1 Congresso de Meio Ambiente no Clube da Engenharia no Rio, denunciei o total desencontro de informações dos órgãos de previsão e as prefeituras. Nestes 27 anos, nada mudou.

            Naquela época,  me causou espanto quando um meteorologista da Aeronáutica me confirmou que pelo radar meteorológico desta força ele sabia o que estava para acontecer  em 1981, mas não podia avisar ninguém, pois aquelas informações  eram exclusivas para a aviação civil. Muita coisa mudou na Aeronáutica, pois hoje as informações do radar estão disponíveis na Internet.

            O que me causou indignação naquela época é o total despreparo das autoridades em 1988: diante do meu primeiro modelo de previsão de deslizamentos, eu sabia o que estava para acontecer e avisei antes uma rádio e a PM. A rádio me informou que não poderia avisar nada para a população, pois isto poderia trazer pânico, e a PM me disse: ”O que o senhor quer que a gente faça!!

            O que aconteceu depois todos sabemos: 500 deslizamentos, 173 mortes, mil feridos e quatro mil desabrigados.

            Já em 1990 e 1991, aplicamos o primeiro modelo de monitoramento das chuvas e do solo com a Defesa Civil Municipal e tivemos chuvas ainda maiores que 1988: 176mm e 156mm, contra 145mm em 1988. Tivemos, mais uma vez, mais de 500 deslizamentos, mas agora apenas duas vítimas fatais, que não quiseram sair de suas casas. O voluntariado da Defesa Civil e os vigilantes da chuva tiveram um papel fundamental nesta vitória contra mortes desnecessárias nos deslizamentos.

            O pluviômetro caseiro foi evoluindo e é apenas uma ferramenta de todo o sistema de monitoramento. Mas ele não deixa dúvida nenhuma: nas chuvas acima de 100mm em um dia, ele aponta uma faixa preta, na qual  o morador das áreas de risco deve abandonar a sua casa e procurar lugar seguro!!

            Na chuva da semana passada, registramos no Vale do Cuiabá, 135mm; Teresópolis, 142mm; Nova Friburgo, 185mm; e Centro de Petrópolis, apenas 30mm.

            Estamos há 30 anos coletando dados pluviométricos em Petrópolis. O nosso monitoramento do Tempo e do solo envolve mais de 90 informações diárias e foi comprovado por dezenas de vigilantes que salvaram suas vidas e de seus vizinhos, que saíram a tempo das suas residências em áreas de risco. Foi atestado também por tese de mestrado pela UFF, e teve o reconhecimento da Associação dos Engenheiros da Alemanha.

            É um árduo trabalho científico, mas principalmente de mobilização social. Destaca-se neste sistema, o brilhante e intenso trabalho do Comando da Paz, que  propaga  para todos os cantos do município esta  simples e eficiente idéia.

            Por causa deste  sucesso, este programa recebeu do governo alemão uma estação meteorológica digital no período de 2000 a 2005, aumentando ainda mais a eficiência do sistema. Em 2004, fomos então convidados pelo Ministério Público Estadual a integrar  o Projeto Morte  Zero, quando então implantamos o Site Vigilantes do Tempo, que  uniu todas as informações dos vigilantes e manteve sempre a cada hora a real situação de risco da cidade. Neste período, emitimos vários alertas de escorregamentos e enchentes com um índice bastante preciso. Existe um relatório completo deste  período, mostrando a emissão de todos os  alertas, e o dia seguinte da cidade nos jornais. Nosso site mantinha inclusive links com as diversas previsões, incluindo INPE, Climatempo e o Cato do LNCC. Emitimos também vários avisos, informando que apesar de algumas fortes chuvas registradas em algumas situações, não havia nenhum risco, evitando-se assim situações de pânico desnecessárias e qualquer tipo de sensacionalismo.

            Fomos entao naquela época chamados pelo Governo do Estado – Semadur, para com base na nossa experiência em campo, juntos com o LNCC propormos algum  tipo  de Sistema  de Alerta. Por  nossa proposta ser talvez simples e barata demais, todo o nosso trabalho e experiência foi simplesmente desprezado, e até debochado por alguns cientistas vaidosos, que simplesmente nem se deram ao trabalho de ler os nossos trabalhos publicados e nem subir a nenhum morro em Petrópolis para  acompanhar ao vivo a atuação social do vigilante. Ninguém melhor que o próprio morador das áreas de risco para monitorar a chuva e o seu risco. O que ele precisa é só um pouquinho de atenção e aprender a técnica. Ninguém mais interessado que o próprio morador para saber do seu risco. O cientista e os doutores não vão morrer que nem ele!!!

            Mas infelizmente o que se vê do lado das autoridades estaduais e federais são apenas megaprojetos de milhões e milhões, mas nada de prático para o Município. Falam até que o município recebeu o aviso das chuvas fortes.

            Mas gostaria de saber como os “previsores da catástrofe sabiam do que estava acontecendo, se o Radar Meteorológico do Rio esteve quebrado do dia 11 de janeiro até o dia 17 de janeiro!!!

            É lamentável se ver tanto dinheiro investido no Sistema de Alerta proposto pelo LNCC(mais de R$ 800 mil, e ainda se dizer que está sendo testado há quatro anos, e a população não ter nenhum resultado prático disto. É vergonhoso que os dados destas estações não estejam disponíveis na Internet para a população, e fiquem restritos a quatro paredes  dentro da comunidade Acadêmica. Ou então nem existem.

            A sociedade  hoje exige a democratização das informações!  Estes dados são públicos e foram pagos com o suado dinheiro dos impostos do contribuinte.

            Deixa-me bastante preocupado a autossuficiência do LNCC, que simplesmente descarta uma experiência de uma cidade inteira e não publica diariamente na Internet os dados meteorológicos medidos nestas caras estações implantadas aqui com o dinheiro do contribuinte.

            Esta catástrofe mais uma vez nos mostrou o despreparo do sistema de Defesa Civil, mas, acima de tudo, da própria população, que insiste na ocupação desordenada das beiras dos rios e encostas. Fica claro que, com planejamento e ações preventivas, podemos facilmente reduzir em 95% o número de mortes nestas catástrofes.

            A mobilização da população é importantíssima, e principalmente à noite. No Vale do Cuiabá, morreram muitas pessoas por a inundação ter ocorrido à noite. Em São José do Vale do Rio Preto, a inundação ocorreu de dia, o que permitiu que as pessoas saíssem a tempo. Em Areal, a presença de espírito do prefeito que usou um carro de som para avisar a população, demonstra, claramente, que não é preciso as pessoas morrerem nestes eventos. Em Teresópolis e Nova Friburgo foi tudo também de noite.

 

Fonte: Tribuna de Petrópolis, 25 de janeiro de 2011.




 

 

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