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  As cerâmicas de Itaipava

Data: 06/05/2014

As cerâmicas de Itaipava

 Criado em Terça, 06 de Maio 2014 11:05

 

Apreciei a arte de Henri Gonot, da Cerâmica Itaipava, ainda meninote. Ao construir uma casa de veraneio na Independência, hoje Quarteirão Italiano, meus pais encomendaram à Cerâmica Itaipava o revestimento de um banco em cerâmica decorada. Guardo com imenso carinho a foto do banco, na lateral da casa, tirada em meados da década de 40. Sei que a casa que meus pais tiveram de vender ao voltarmos para a França em 1.950, continua lá com as suas colunas bojudas, um pouco depois do CIEP, e tive ocasião de encontrá-lo, “novo em folha”, quando pedi permissão para revisitar um dos principais cenários de minha infância. Vim, mais adiante, a adquirir o sítio “Pique” em Benfica (68), onde nossos sete filhos puderam  aproveitar cada minuto dos fins de semana e férias.

Convivi com a família Luís Salvador, vizinhos da Gabinal e, a seguir, do Itaipava Shopping. Com César, da Cerâmica Santa Etienne, com os Irmãos Braga, da Nova Cerâmica, com Oscar Baianinho e com tantos mais. Lucia foi, muitas vezes, visitar Geneviève Vavin em Pedro do Rio, artista sensível que trabalhara com Gonot. A cerâmica era a marca registrada e o título de nobreza  de Itaipava; citava-se Itaipava e eram as cerâmicas que vinham à mente. 

Aos poucos, essa tradição foi cedendo espaço para outras atividades. Alguns novos ateliês surgiram na região, mas as manufaturas que se enfileiravam na União Indústria hoje são saudade na memória. Conheço uma exceção, e talvez haja outras: quando do falecimento prematuro do filho do fundador, a Cerâmica Luís Salvador arriscou fechar as portas. As circunstâncias – ou a Providência, através de um corretor de imóveis - conduziram os passos de um empresário em outros ramos a visitar as instalações, em busca de um terreno amplo para erguer um condomínio. Mas, qual!  Apaixonou-se pela atividade, pelo ambiente da  manufatura; deu adeus às operações imobiliárias e a Cerâmica Luís Salvador foi salva in extremis. José Marcelino Albernaz ousou transformar-se em ceramista, apesar de nunca antes ter pisado em locais onde se produzissem as cerâmicas artísticas. Ufa! Quase... Mais um a se deixar guiar pelo coração, deixando sábios cálculos econômicos para trás. Um aspecto me intriga. Nós, petropolitanos, até que manifestamos justas preocupações com o patrimônio histórico, arquitetônico, artístico, vide a Sra. Fernanda Colagrossi, grande Dama deste bom combate, e exceção feita da maneira pela qual tratamos a Monsenhor Bacelar. . Por que não damos a mínima para certos patrimônios intangíveis? A Bauernfest é muito, mas não é tudo. Quem mais se lembra que houve tempo quando “uma Petrópolis” identificava as melhores bengalas do Brasil? Alguém mais se recorda da manteiga Duriez, acondicionada em folhas de bananeira, vendida em loja no início da avenida? Porque aceitamos ver parcelas de nosso passado artístico e manufatureiro desaparecer sem esboçarmos qualquer gesto de apoio? Porque somos tão desleixados com outras atividades que honraram e ainda podem honrar Petrópolis, da qual Itaipava e Pedro do Rio fazem parte? 

Se é necessário, para que uma nova atividade floresça, que outra mais antiga desapareça, deveríamos rever nossos conceitos de desenvolvimento. Itaipava dispunha de mão de obra especializada em cerâmica artística que precisou reciclar-se em outras técnicas. Cá entre nós, que desperdício! Na Europa da EADS e da AREVA, da Mercedes e do anel da prova do bósom de Higgs (o que quer que seja isto), a manufatura de tapeçarias de Aubusson continua produzindo desde o século XVI, a de Baccarat fabrica cristais e  a de Sèvres fabrica porcelanas desde os tempos dos Luíses. 

 

Philippe Guédon 




 

 

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